Prefiro os que sonham. Prefiro o mar
chão. Prefiro os lagos. Prefiro as planícies. Prefiro o deserto.
Prefiro o Alentejo. Não gosto de águas paradas. Prefiro o silêncio.
Prefiro o nascer do dia. Prefiro o sol. Prefiro o calor. Prefiro a
noite, o mundo lá fora adormecido e um livro. Prefiro o jazz, a
música clássica e a cantada em português de cá ou do Brasil. Não
esqueço o Brel, o Reggiani, a Barbara, a Greco, o Yves Montand.
Rendo-me à Amália, à Piaf, à Callas. Prefiro amar. Prefiro ser
amada. Prefiro a lealdade, a verdade, a dignidade. Detesto a intriga,
a má-língua, a falsidade, a maldade, a mediocridade. Não gosto de
festas grandes, de festas de calendário, de casamentos, de
acontecimentos sociais. Prefiro os amigos e a intimidade. Prefiro
jantar. Prefiro vinho tinto. Gosto de pratos vegetarianos, de comida
indiana, chinesa, tailandesa, japonesa, francesa, portuguesa do
Alentejo e das Beiras. Adoro a cozinha Belga. Mais do que tudo gosto
de partilhar a mesa com os amigos que sabem comer. Preciso de
partilha. Preciso de entrega. Adoro cães, gatos, vacas, burros,
águias, cegonhas, falcões, golfinhos, todos os bichos, quase todos.
Desculpem-me os morcegos, os ratos, as moscas, as baratas. Adoro
estar com a natureza. Adoro ler na praia. Adoro água. Para beber,
para nadar. Adoro a transparência. Adoro a luz. Não gosto de viajar
de avião, nem de aeroportos, nem de cruzeiros, nem de fazer malas.
Gosto de viajar de carro, de passear de barco muito muito junto à
costa. Tenho medo do risco físico. Gosto de transgredir. Adoro estar
em casa. Adoro casas. Gosto de construir seja o que for. Detesto
destruir seja o que for. Gosto de reciclar objectos velhos. Preciso
de estar a sós comigo algumas horas por dia. Gosto de utopias. Gosto
de lutar por ideais. Prefiro quem tem ideais. Gosto de ter esperança
e de acreditar. Não tenho medo de perder. Tenho medo de perder a
saúde. Não gosto de desistir. Sonho com casas no campo e na praia.
Cansam-me as cidades grandes. Gosto de grandes arquitectos. Gosto de
peças arrojadas. Gosto do anonimato nas grandes cidades. Gosto de
aldeias e vilas. Não gosto da coscuvilhice dos lugares pequenos.
Detesto que devassem a minha privacidade. Tenho medo das doenças.
Tenho o pânico das estreias. Irrita-me o ruído. Irritam-me as
pessoas que falam alto demais, o ar condicionado gelado em cima da
cabeça, em restaurantes e salas de espectáculo, as correntes de ar,
o vento frio e cortante, os selvagens que se colam à traseira do meu
carro nas auto-estradas. A má educação põe-me fora de mim. A
arrogância também.
Gosto de me levantar cedo. Enervam-me
os toques simultâneos do telemóvel, do fixo, da campainha da porta.
Adoro aprender. Adoro que me ensinem. Adoro descobrir coisas novas.
Adoro os contadores de histórias. Adoro rir. Rio-me com
infantilidades. Gosto da inocência. Não gosto de espertalhões nem
de gente sabida. Gosto de gente sábia. Gosto da simplicidade e da
humildade das grandes pessoas. Gosto de contribuir para a felicidade
dos outros. Gosto de proteger. Gosto que me protejam. Gosto de livros
com poemas, romances, ensaios, contos, biografias, pintura,
fotografia, arquitectura. Gostava de saber pintar, de saber cantar,
de saber tocar piano, de escrever poesia, de escrever peças de
teatro. Não gosto de emprestar livros. Não gosto de ler livros
emprestados. Gostos de sublinhar os livros. Gostava de saber falar
sem me atrapalhar. De não tropeçar nas palavras. De ser menos
tímida e menos auto-crítica. Não gosto de usar saltos altos, nem
sais justas, nem vestidos justos nem roupa apertada no pescoço ou na
cintura. Acho que os criadores de moda têm alguma coisa contra as
mulheres. Acho que as mulheres ainda não se emanciparam senão
mandavam-nos às malvas. Acho que as mulheres têm muito mais medo de
não agradar do que os homens. Gosto de me cuidar. De me vestir e
calçar com roupa confortável. Tenho preocupações estéticas.
Gosto de me sentir bem quando me olho num espelho. Gosto de namorar.
Gosto de me apaixonar. Por pessoas, por projectos, por locais.
Detesto discussões cegas e surdas. Detesto pessoas agressivas.
Detesto traições. Detesto boatos. Adoro o espectáculo. Adoro os
ensaios no teatro. Adoro pisar um palco vazio. Adoro estúdios. Adoro
projectores. Adorava o cheiro dos velhos camarins e dos velhos
teatros. Adorava as pancadas de Molière. Adorava os palcos com
cortinas pesadas que abriam e fechavam em cada acto. Adoro
espectáculos de magia. Gosto de gostar. Gosto de admirar. Gosto de
contemplar. Gosto de ser surpreendida e de surpreender.
